Fonte: Portal Global 21, Artigo Humberto Barbato - 5/1/2010
A crise mundial impactou fortemente a indústria eletroeletrônica neste ano, que reduziu a produção em função da queda da demanda interna e da drástica perda no mercado externo. Desta forma, estamos fechando 2009 com retração de 9% no faturamento do setor. Salvo as áreas de Informática e de Material Elétrico de Instalação, que vão repetir a performance de 2008, todas as demais registrarão quedas expressivas.
As exportações despencaram 27% por conta de restrições na demanda internacional, do Real sobrevalorizado e de medidas protecionistas adotadas pela Argentina, Venezuela e Equador, e as importações caíram 25%. Mesmo assim, o déficit comercial do setor se manteve elevado, chegando a R$ 17 bilhões.
É difícil imaginar quais seriam os efeitos da crise se tivéssemos ainda inflação anual de três dígitos, déficits elevados em conta corrente e dívida externa considerada impagável. Deste pesadelo, despertamos, felizmente. Somos hoje, aos olhos do mundo, uma Nação mais amadurecida, com mais vontade e aptidão para enfrentar os desafios estruturais.
O momento agora é de olhar para o futuro e vislumbrar as oportunidades que se apresentam ao Brasil nesta nova conjuntura econômica. O mundo não será mais o mesmo de antes da crise. Recairão sobre as nações desenvolvidas os efeitos mais severos desse terremoto.
O fato é que a crise produziu mudanças na geografia econômica do planeta e interrompeu um longo ciclo de prosperidade, que levou a economia mundial a crescer bem acima de sua média histórica. A expectativa agora é de um crescimento mais modesto em escala global. A próxima década abre portas, sim, mas traz ao mesmo tempo enormes desafios.
Será necessário agora superar ineficiências estruturais e sustentar a expansão sobre ganhos efetivos de produtividade, apoiados na inovação. No caso brasileiro, temos, assim, que debelar nossas deficiências na infraestrutura, que atrapalham o crescimento sustentável, reduzir sensivelmente as taxas de juros, ainda muito elevadas para os padrões mundiais, e equacionar a absurda carga tributária que pesa sobre as empresas e toda a sociedade.
O governo precisa, também, gastar menos e melhor para que a iniciativa privada e a sociedade façam o país crescer de forma mais harmônica, duradoura e sustentada.
É necessário expandir para outros segmentos o exemplo bem-sucedido da isenção do PIS e Cofins dos bens de informática, que mostrou que redução de imposto não gera queda na receita tributária.
Os exemplos da linha branca, dos automóveis e da construção civil, também devem ser seguidos. Diante do encolhimento da demanda, no início de 2009, o governo agiu rápido, eliminando ou reduzindo o IPI de uma série de produtos, o que interrompeu a queda na produção industrial destes setores, preservando empregos e fortalecendo a cadeia produtiva.
Quanto ao câmbio, o passado já nos legou lições dolorosas, de que não podemos esquecer. Moeda apreciada em cenário de expansão econômica conduz a déficits comerciais, déficit em transações correntes, crise cambial e interrupções do crescimento.
Vale lembrar a lição do economista Mario Henrique Simonsen, que dizia que "a inflação aleija, mas o câmbio mata".
O IOF de 2% na entrada do capital externo foi uma medida acertada, mas insuficiente. Há um arsenal de alternativas à disposição das autoridades econômicas. O Real apreciado funciona, na verdade, como um freio de mão puxado, reduzindo a competitividade das exportações industriais e deixando aberto o caminho para a desindustrialização.
Também não é possível fechar os olhos e deixar de considerar como fundamental a promoção de alterações estruturais no campo político e partidário. Diante de tudo o que se vê na administração pública, o país corre o risco de ver a sociedade caminhar para uma posição de absoluta desconfiança em relação aos agentes do Poder Público e às instituições.
Há ainda uma agenda perdida que precisa ser resgatada. Nela está a reforma fiscal e tributária, que levem à redução dos gastos de custeio da máquina estatal e à liberação de recursos para os investimentos.
Tudo isso não pode se tornar obstáculo para o crescimento que queremos para os próximos anos. Olhando para um horizonte mais amplo, é possível vislumbrar um ciclo duradouro e sustentado para o país e para nossa indústria. Já, em 2010, o setor eletroeletrônico prevê crescimento de 11%.
Os investimentos no pré-sal, por exemplo, podem transformar a economia brasileira, se houver a decisão de valorizar o conteúdo local.
Quando se pensa em crescimento industrial de dois dígitos, é inevitável se pensar também na oferta de energia. O Brasil viveu recentemente um apagão que atingiu quase todo o país.
Mesmo que a causa imediata tenha sido um acidente, é importante, agora, dar andamento a obras que supram a demanda de energia na hipótese de um novo susto.
Para suportar a economia em ritmo forte, os investimentos em infraestrutura pressupõem também a expansão das Telecomunicações. Além da universalização da rede 3G, o Plano Nacional de Banda Larga precisa ser posto em prática.
A questão dos componentes também tem que ser considerada. No mundo, a indústria de componentes é hoje estratégica. A inovação tecnológica vem migrando gradualmente do produto final para o componente. Desta forma, a participação do Estado na definição de uma política abrangente para este segmento é fundamental e deve contemplar a adoção de um regime tributário especial, que supere a estrutura perversa hoje vigente, que privilegia a importação do produto acabado.
Estes são temas prioritários para que tenhamos um país e uma indústria forte e competitiva, com a oportunidade de crescer com qualidade e agregação de valor, gerando, cada vez mais, empregos e distribuindo melhor de renda.
Humberto Barbato, presidente da Abinee - Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica. |